Nesta semana, um remake da novela “Vale Tudo”, ressuscitou um nome que está no inconsciente coletivo dos brasileiros: Odete Reutemann (me recuso a escrever “Roitman”), a maior vilã da televisão brasileira, imortalizada pela atriz Beatriz Segall. O papel agora é de Débora Bloch, que – pasmem – tem hoje a mesma idade de Segall em 1988.
Odete Reutemann caiu imediatamente no gosto popular e suas tiradas politicamente incorretas chocavam até os mais calejados naquele mundo em que se vivia 37 anos atrás. Mas, ao mesmo tempo, provocavam risadas e comentários. Qual o segredo do personagem? Ele estampava os preconceitos mais escondidos que boa parte dos brasileiros possui.
A agenda politicamente correta, nos últimos anos, forçou mudanças no comportamento das elites nacionais, entre as quais o início de uma batalha contra o racismo, o machismo e a misoginia. Mas existe um outro tipo de preconceito, que habita no universo de quem tem dinheiro e sobrevive com força total: a repulsa contra os pobres.
Abominar o comportamento associado à pobreza é algo que se percebe em crianças, adolescentes e adultos. Trata-se de algo quase que incontrolável, que surge – como na maioria dos casos que envolvem preconceitos – em piadas ou demonstrações de humor.
Neste quesito, por sinal, outro personagem inesquecível da TV ganhou grande notoriedade: o malandro Caco Antibes, do humorístico “Sai de baixo”, que vivia soltando pérolas que ridicularizavam os menos favorecidos e arrancavam gargalhadas dos telespectadores.
Mas Odete, na pele da classuda Segall, ia além e seduzia pela finesse e pela maldade que destilava em frases irônicas e bem construídas pelo autor Gilberto Braga. Vamos a algumas delas:
“O Brasil é um país de jecas. Ninguém aqui sabe usar talher de peixe.”
“Nosso jantar é muito simplesinho. O primeiro prato é de uma simplicidade franciscana. Temos uma lagostazinha.”
“Nunca sirva algo para uma visita em bandeja, você é a dona da casa, não o garçom.”
“Você acha que eu vou pegá-los no aeroporto? Eu acho a coisa mais jeca dar plantão em aeroporto. Eles até colocaram vidro para as pessoas não verem quem está chegando, mas mesmo assim as pessoas colocam o nariz no vidro, penduram criancinha pra dar ‘tchau’. Eu vou mandar o chofer.”
“Eu gosto do Brasil. Acho lindo, uma beleza. Mas de longe, no cartão postal. Essa terra aqui não tem jeito. Esse povo daqui não vai para frente, é preguiçoso. Só se fala em crise e ninguém trabalha?”
Dificilmente Debora Bloch irá igualar a performance da Odete original. Mas, com certeza, suas tiradas vão ganhar notoriedade nas redes sociais. Afinal, para o brasileiro, rir de si mesmo é sempre o melhor remédio.