A indicação da brasileira Fernanda Torres ao Oscar de melhor atriz nos leva a uma discussão abrangente: precisamos de mais cultura no Brasil. A atuação de Fernanda foi reconhecida pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, assim como o filme de Walter Salles (indicado ao prêmio de melhor filme e de melhor filme internacional), mas é uma gota no oceano. Nossa produção cultural está perdendo quantidade e qualidade a cada ano que passa.
Durante os últimos tempos, uma boa parte de nossa sociedade passou a ver o mundo cultural como um feudo da esquerda – e isso abriu espaço para que se visse com preconceitos artistas, compositores, cineastas, teatrólogos ou escritores. Na prática, boa parte dos grandes talentos da música, do cinema e do teatro passaram a ser vistos como petistas.
Por conta disso, iniciativas como a Lei Rouanet começaram a ser criticadas, pois seriam uma forma de o governo irrigar a carteira de artistas que o apoiariam. Ocorre que alguém que tenha um projeto aprovado pela Lei Rouanet não recebe um cheque do governo – precisa buscar uma empresa que aceite destinar parte do imposto de renda que tem a pagar para entregá-la a um produtor cultural. Não é exatamente uma tarefa muito fácil, diga-se.
Em um mundo ideal, porém, produções culturais deveriam ser bancadas por empresários do setor, como ocorre em vários países do mundo. Aqui no Brasil não deveria ser diferente. Sucessos como a película “Ainda Estou Aqui” mostram que é possível ganhar dinheiro com cultura em nosso país. Mas, para isso, é preciso ter um produto de qualidade e com apelo popular.
Muitos conservadores torcem o nariz, por exemplo, para Chico Buarque de Hollanda – seja por seu ativismo de esquerda ou por suas obras que criticavam a ditadura militar. Mas o mesmo Chico escreveu dezenas de canções de amor que nada têm a ver com política e são verdadeiras obras-primas.
Oscar Niemeyer era comunista. Isso fez dele um arquiteto menor? Não. Uma das maiores obras literárias brasileiras foi escrita por um esquerdista: “Os Sertões”, de Euclides da Cunha. E o que dizer da obra de Di Cavalcanti, reconhecida em todo mundo? Pois ele se filiou ao Partido Comunista Brasileiro aos 31 anos de idade.
É muito mais fácil encontrar um artista brasileiro talentoso de esquerda do que de direita. Mas uma boa parte da atividade cultural se manifesta para compreender a natureza humana, seus sentimentos e contradições. Geralmente, compositores, autores e intérpretes (de música ou de papéis) são pessoas complexas, que têm uma sensibilidade mais alta que a média. É justamente por isso que eles conseguem traduzir as nossas angústias e alegrias através da arte.
O Brasil está ficando esturricado em termos artísticos. Por isso, precisamos nos esforçar para tirar o preconceito que surge da polarização política. É possível admirar uma obra de Di Cavalcanti sem ficar matutando sobre a orientação ideológica do pintor. Ou se emocionar com os versos de “Atrás da Porta”, de Chico Buarque (“Dei pra maldizer o nosso lar/ pra sujar seu nome, me humilhar/ E me vingar a qualquer preço/ Te adorando pelo avesso”) sem pensar que ele votou no PT nas últimas eleições.
Precisamos desarmar os corações e voltar a nos comover com filmes, peças de teatro, livros de ficção, músicas e poesia. É necessário trazer a cultura de volta às nossas vidas, ampliando nossos horizontes e nos ajudando a entender melhor a nossa existência. Que o sucesso de Fernanda Torres nos ajude a resgatar iniciativas artísticas de primeira linha que vão esculpir melhor o nosso caráter e nossa alma.