A Fórmula 1 consegue utilizar tecnologias novas do setor automobilístico, que, ao serem adaptadas e melhoradas no circuito, podem transformar recursos que estavam sendo testados em carros comuns em soluções inovadoras para o mercado consumidor
Dentre os esportes motorizados, não é difícil reconhecer a corrida de Fórmula 1 (F1) como o mais conhecido e assistido. Desde seu começo oficial em 1950, as vinte e três corridas que ocorrem no campeonato a cada temporada possuem uma importância que vai além do entretenimento, pois os desenvolvimentos nelas ocorridos agregam técnicas e tecnologias ao setor automobilístico e aeroespacial. Além disso, o futuro do esporte promete uma série de outros avanços para a indústria de tecnologia.
A Fórmula 1 é uma corrida automobilística que envolve dez equipes distintas, cada uma com dois pilotos correndo e competindo entre si. Ela é baseada no seguinte sistema de pontos: ganham pontos os dez primeiros colocados em um Grand Prix, ou Grande Prêmio, que é a corrida transmitida. Dependendo do posicionamento do piloto, a quantidade pontuada varia.
Dois campeonatos ocorrem simultaneamente: o dos construtores, que envolve as equipes e considera os pontos combinados dos dois pilotos para determinar a vencedora; e o dos pilotos, que julga apenas os pontos individuais dos corredores. Visto que é de interesse dos times ganhar ambas as modalidades, os competidores estabelecem diversas estratégias para se aproveitarem do sistema de pontuação. Uma tática muito comum é a de “sacrifício”, na qual um dos pilotos é priorizado sobre o outro, podendo inclusive acarretar sérias disputas e rivalidades entre integrantes de uma mesma equipe.
De forma superficial, já é possível compreender o interesse na Fórmula 1. É um esporte glamouroso associado a viagens internacionais, rivalidade e colaboração entre membros de uma mesma equipe, estratégias interessantes, além da adrenalina de assistir máquinas potentes se movendo a mais de trezentos quilômetros por hora. Entretanto, há algo que a diferencia de outras corridas automobilísticas, como a Copa Nascar ou a Fórmula Indy: os carros.
Na maioria dos esportes motorizados, os automóveis são padronizados, e a competição se baseia no próprio talento dos pilotos. Tomando como exemplo a Fórmula Indy, todas as equipes recebem um carro pronto, o DW-12. Ainda que o carro possa sofrer certos ajustes, no fim o vencedor de uma corrida é o piloto que melhor conseguiu dirigir o veículo.
Já na Fórmula 1, as próprias equipes constroem seus carros, de forma que a competição se torna também uma corrida tecnológica, tanto que algumas escuderias da F1, isso é, algumas das equipes competidoras nos campeonatos, também são montadoras de veículos para o varejo, como a Ferrari e a Mercedes.
Claro que existem limitações, como o investimento máximo para a produção das máquinas de 140 milhões de dólares e outros requisitos técnicos que visam a segurança dos pilotos. Entretanto, pelas regulações flexíveis do esporte, a Fórmula 1 em si torna-se um polo de desenvolvimento tecnológico.
Imediatamente, é possível observar as semelhanças de um carro de F1 a um avião, mas com propósitos inversos: enquanto uma aeronave usa a aerodinâmica para se manter no céu, os carros a usam para se manter no chão, o que é essencial para a segurança nas altas velocidades. Com conhecimentos nas áreas de engenharia mecânica e aeroespacial, os automóveis têm o design com o intuito de empurrá-los para baixo e mantê-los próximo à pista.
Por conta disso, a Fórmula 1 consegue utilizar tecnologias novas do setor automobilístico, que, ao serem adaptadas e melhoradas no circuito, podem transformar recursos que estavam sendo testados em carros comuns em soluções inovadoras para o mercado consumidor.
Também existem aplicações não tradicionais do que se é desenvolvido na F1, como, por exemplo, na área da saúde. Em 2007, o Dr. Ken Catchpole, da Universidade de Oxford, aplicou estratégias de pit-stop no contexto de crianças e bebês que passaram por cirurgia cardíaca. Ao unir dois contextos onde o tempo é um fator imprescindível, as técnicas de pit-stop servem como guia no tratamento cirúrgico das crianças, em que a agilidade e precisão são emergenciais.
Apesar de tudo que o esporte promete, ele ainda tem problemas nos quesitos de inclusão e sustentabilidade. Nos últimos 30 anos, nenhuma mulher entrou para a grade de pilotos, uma parte esmagadora dos corredores são europeus, e as atividades relacionadas à F1 emitem 256.551 toneladas de gás carbônico na atmosfera em apenas uma temporada, equivalente ao consumo do gás por mais de 11 mil árvores em um ano. Entretanto, cada vez mais a Federação Internacional do Automóvel (FIA), responsável pela Fórmula 1, conscientiza-se destas questões.
Em 2023, foi criada a Fórmula 1 Academy, corrida com o intuito de treinar meninas para competir nas corridas classificatórias para a F1, como a Fórmula 2 e a Fórmula 3. Além disso, há a iniciativa para fazer a Fórmula 1 ter zero emissões de carbono até 2030 a partir do uso de combustíveis renováveis, da minimização dos desperdícios e do desenvolvimento de tecnologias inovadoras, as quais inclusive já estão sendo testadas nos Grande Prêmios de Singapura. Assim, a relevância da Fórmula 1 vai muito além do entretenimento: ela afeta a indústria de tecnologia como um todo e é um espaço único para a inovação.
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Por Jovens Cientistas Brasil
Publicado originalmente em: bit.ly/3QNf2Kk