Há alguns meses, quando me perguntavam se era possível a vitória de Jair Bolsonaro em 2018, respondia o seguinte: as eleições de 1989, que elegeram Fernando Collor de Mello, foram diferentes de tudo que tivemos a partir de 1994, pois aquele pleito elegeu apenas o presidente da República. A partir de 1994, os eleitores tiveram de votar não apenas para presidente, mas também nos candidatos a governador, senador, deputado federal e deputado estadual. Em tese, esta dinâmica acabava beneficiando os candidatos de grandes partidos, com estrutura em todo o território nacional. Além disso, as coligações partidárias dariam a essas agremiações mais tempo na campanha televisiva, que ainda teria uma grande importância em todo o processo. Portanto, achava muito difícil que um candidato como Bolsonaro, a bordo de um partido pequeno, fosse vitorioso.
Hoje, a menos de dois meses do primeiro turno, minha opinião é outra.
As eleições de 2018 estão muito parecidas com as de 1989.
O contexto é muito semelhante. Em 1989, tínhamos um problema enorme – a inflação – e um presidente (José Sarney) extremamente impopular. Hoje, nosso problema é de ordem moral: varrer a corrupção da política. E o mandatário da Nação, outro vice que assumiu o poder, tem os piores índices já vistos de aprovação popular.
Há um número grande de candidatos e a participação no segundo turno, em função desta fragmentação, pode ser determinada por um percentual baixo. Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, obteve o direito de enfrentar Fernando Collor ao cravar 17,18% do eleitorado (Leonel Brizola passou raspando, com 16,51% dos votos).
Jair Bolsonaro é o Collor desta eleição: partido pequeno, nome com apelo popular e discurso de mudanças. Tem alguns toques de um candidato nanico que marcou época, Enéas Carneiro. Lula, por ser inelegível, não pode reprisar seu próprio papel – que ficaria a cargo de Fernando Haddad. Geraldo Alckmin faz as vezes de outro tucano, Mário Covas, e mantém uma campanha que não empolga o eleitor. Ciro Gomes, por sua vez, vive o papel de Brizola – o caudilho de esquerda que fala grosso quando provocado e faz pouco dos candidatos alinhados à direita. Marina Silva é a única que foge da curva e não se parece com nenhum dos 22 postulantes de 1989. Henrique Meirelles é a versão 2.0 de Ulisses Guimarães: mesmo partido, poucas intenções de voto, um estilo de falar que desafia fonoaudiólogos e muito tempo na TV. João Amoêdo lembra vagamente a candidatura liberal de Guilherme Afif Domingos, mas tem um número bem menor de votos.
Geralmente os analistas desprezam candidatos como Amoêdo e outros que têm pouca chance de passar ao segundo turno. Muitos eleitores, ainda, acreditam que estes candidatos não têm influência na escolha de quem de fato vai decidir o páreo na fase final. Já que estamos falando de 1989, é importante levantar um dado daquela eleição. Brizola perdeu o direito de enfrentar Collor por 0,68% dos votos. Os 14 candidatos que tiveram menos de 1% nas urnas somaram 4,67% dos votos. Ou seja, uma parte deste eleitorado poderia ter votado em Brizola e mudado o resultado daquela eleição. Conclusão: os nanicos podem tirar votos importantes de candidatos que vão bater na trave.
De qualquer forma, ainda há um número enorme de indecisos. Também não se sabe ao certo qual será a capacidade de transferência de votos de Lula para Haddad, especialmente no Nordeste. Por fim, não sabemos exatamente se a campanha na televisão vai mudar a tendência eleitoral vista até agora – leia-se liderança de Bolsonaro.
Diante do que se viu até agora, dificilmente Bolsonaro não estará no segundo turno. Mas eleições são eleições. E trazem reviravoltas até em prognósticos nos quais ninguém duvida.